NIILISMO REATIVO: A FALSA MORTE DE DEUS

Fonte: Razão Inadequada

Autor: Rafael Trindade

nietzcheNovas lutas – Depois que Buda morreu, sua sombra ainda foi mostrada numa caverna durante séculos – uma sombra imensa e terrível. Deus está morto; mas, tal como são os homens, durante séculos ainda haverá cavernas em que sua sombra será mostrada. – Quanto a nós – nós teremos que vencer também a sua sombra” – Nietzsche, Gaia Ciência, § 108

Ok, matamos Deus, agora é só relaxar e aproveitar este mundo, certo? Errado… a morte de Deus é apenas o início, o primeiro passo. É agora que tudo se torna mais perigoso. O niilismo reativo é a negação dos valores platônicos e cristãos. Matamos Deus! Mas privados destes valores supremos que decaíram, nos sentimos órfãos. A reação do niilismo é quase inevitável, Deus ainda caminha pelo mundo como um morto vivo. O homem do niilismo ainda precisa de fundamentos, e Deus se esconde neles.

O preço a se pagar pela morte dos valores divinos é muito alto. Nietzsche constata que o homem de seu tempo não está preparado para as consequências deste ato. Podemos suportar a leveza da morte de Deus? Afinal, já andamos tortos pelo peso dos valores carregado por tanto tempo. Deus está morto! E agora? O que fazer? Para onde ir? O desespero se abate sobre nós, procuramos um novo norte. É preciso lembrar que “Deus está morto” não é uma constatação metafísica, mas ética. Sendo assim, de nada adianta substituir deus pelo homem reativo… muda-se apenas metafísica por trás, mas a moral continua a mesma. Por isso estamos tão perdidos, somos humanos, demasiadamente humanos, para matar Deus!

Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos?” – Nietzsche, Gaia Ciência, § 125

A morte de Deus é o grande acontecimento do século passado, um dos aforismos mais famosos de Nietzsche. Sim, fechamos as portas para o transcendente, trancamos à sete chaves os portões do céus! Mas, não estamos contaminados de religião? Já não somos viciados em metafísica? Deus não entrou sorrateiramente pela janela, como um fantasma, e escondeu-se em nossos mais terrenos pensamentos? A sombra de Deus assombra nosso século ainda: somos ateus religiosos, agnósticos crentes, fiéis sem pastor. Por que? Porque o homem ainda acredita na verdade, toma para si o que era divino, mas mantém acesa a chama da verdade. Morre a religião, nascem os valores humanistas.

Quando Robespierre instaurou a república francesa, após a revolução de 1789, o calendário gregoriano foi posto de lado e instituiu-se o culto à razão. Igrejas foram transformadas em Templos para esta nova divindade. Seus objetivos eram claramente anticristãos, trocou-se a crença pela razão, inclusive com festivais e celebrações para esta nova religião secular. Deus tornou-se a luz do conhecimento racional. O homem toma para si o que era de Deus, eles se debatem, de digladiam, procurando sentar no trono divino ainda quente! Nietzsche analisa estes espetáculos horrorizado e se pergunta, afinal, quando começaremos a desdivinizar o mundo? Ainda se crê no progresso, ciência e humanismo.

Nós ainda somos devotos! Acreditar no homem é acreditar que há valores humanos. Direitos do homem? Mas e a potência de criar valores? Sim, Nietzsche quer que o homem supere a ele mesmo. O nietzschianismo não é um humanismo, ele está para além de qualquer representação humana. O antropocentrismo é a armadilha que o niilismo reativo cai recorrentemente. O homem não é um fim em si, ele é uma corda estendida entre o macaco e o além-do-homem.

A ciência também é muitas vezes niilista. Sim, Dawkins e companhia. O dogma científico é um barco que afunda também no mar do niilismo. Ciência e religião são amantes secretas: “nós, ateus e antimetafísicos, ainda tiramos nossa flama daquele fogo que uma fé milenar acendeu, aquela crença cristã, que era também de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina” (Nietzsche, Gaia Ciência, § 344). Casal que vive brigando, mas no fundo se ama. O padre acredita na verdade tanto quanto o cientista.

A Ditadura da Verdade contém em si uma avaliação moral. A vontade de não ser enganado: não enganar a si mesmo nem ao outro! Mas dizer a verdade é uma forma de covardia. Por que buscar a verdade a qualquer custo? E a potência de inventar novas verdades? Se a vida é aparência então afirmar a vida significa afirmar a própria aparência. Diz Nietzsche: verdades são ilusões que esquecemos como tais. Submeter-se à verdade é ainda carregar consigo valores divinos.

O problema não é o conhecimento, mas a busca pela verdade em si, como um desvelamento do mundo. O conhecimento é instrumento, a verdade é valor metafísico. Não há nada por trás da realidade! Há verdades baixas e desprezíveis, enquanto há mentiras, fabulações  altas, potentes. A que tipo de vida certas verdades servem? Esta busca implacável, tal como Nietzsche a entende, ainda parece divina. Concluímos assim que o homem da ciência ainda é niilista por excelência! E a ciência é um dos produtos mais recentes da vontade de nada.

Cuidado, o niilismo reativo não está longe do niilismo negativo. Ainda somos devotos, e nossas crenças pesam em nossos ombros cansados! Queremos tornar leve as religiões e as ciências, não carrega-as como pesos que nos limitam! Transvalorar valores é matar Deus e o homem, é correr mais rápido que as sombras que nos perseguem, criar uma Gaia Ciência. O homem soberano sabe utilizar a ciência e da espiritualidade quando lhe convém, mas não é escravo delas, sabe deixar todo o resto para trás, quando a potência do falso lhe convém.

O que Nietzsche queria era que se passasse, enfim, às coisas sérias. Fez doze ou treze versões da morte de Deus para não se falar mais disso, para torná-la um acontecimento cômico. […] o importante não é a notícia de que Deus está morto, mas o tempo que ela gasta para dar seus frutos” Deleuze & Guattari, Anti-Édipo, p. 146

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